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O impacto da tecnologia na educação

 

22 de julho de 2026

Nunca na história da humanidade aprender foi tão acessível e, ao mesmo tempo, tão desigual. Em um mesmo país, um jovem de classe média usa aplicativos de idiomas no celular enquanto aguarda o metrô, ao passo que um trabalhador rural no semiárido nordestino não tem sinal suficiente para carregar uma página simples. 

Essa contradição é o coração do debate sobre o impacto da tecnologia na educação: ela pode ser aliada da ampliação do acesso ao conhecimento e da participação na produção de saberes ou uma nova camada de exclusão, dependendo de quem tem acesso a ela e de como é utilizada.

Para quem atua na Educação de Jovens e Adultos, esse debate é urgente.

Um mundo que mudou mais rápido do que a escola

Nas últimas três décadas, a tecnologia transformou praticamente todas as esferas da vida humana. O modo como trabalhamos, nos comunicamos, consumimos, nos informamos e nos relacionamos foi radicalmente alterado pela digitalização. A educação, por sua vez, foi uma das áreas onde essa transformação chegou com mais força e também com mais contradições.

A pandemia de Covid-19 foi o grande acelerador desse processo. A partir de 2020, escolas e universidades de todo o Brasil foram obrigadas a migrar abruptamente para o ensino remoto, expondo de forma brutal as desigualdades digitais do país. 

Estudantes sem dispositivos, sem internet, sem espaço em casa para estudar, além de educadores sem formação para conduzir aulas online, foram os mais afetados. Para os educandos da EJA, que já acumulavam vulnerabilidades históricas, o impacto foi ainda mais severo: a evasão disparou, o isolamento aumentou e a distância entre esses estudantes e a escola ficou ainda maior.

Aquele período doloroso, no entanto, ensinou algo fundamental: a tecnologia, sozinha, não resolve o problema da educação. Ela amplifica o que já existe. Onde havia estrutura e suporte, a tecnologia potencializou o aprendizado. Onde havia precariedade e abandono, ela aprofundou a exclusão.

O retrato da exclusão digital no Brasil

Antes de falar sobre as promessas da tecnologia na educação, é preciso olhar honestamente para o contexto brasileiro.

Em 2024, o Brasil ainda contava com 20,5 milhões de pessoas excluídas digitais (aquelas que não utilizam a internet, o que representa cerca de 10,9% da população acima de 10 anos). Em 2023, 5,9 milhões de domicílios no país não faziam uso de internet, sendo que 33,2% dos casos se deviam ao fato de nenhum morador da residência saber usar a rede, e 30% apontavam o custo do serviço como barreira. 

A desigualdade é também geográfica: enquanto quase 90% dos domicílios no Sudeste têm acesso à internet, os números caem para cerca de 70% no Norte e Nordeste, com situação ainda mais grave nas áreas rurais. Não por coincidência, essas são exatamente as regiões onde o analfabetismo é mais concentrado e também onde o Projeto ALFA-EJA Brasil atua. 

Mas o problema vai além da infraestrutura. Segundo levantamento da Anatel em 2024, apenas 30% da população brasileira possui habilidades digitais básicas, e menos de 20% atingem um nível intermediário de proficiência. Ter acesso à internet não significa saber navegar com autonomia, reconhecer informações falsas, proteger dados pessoais ou acessar serviços públicos online. 

Esse duplo déficit (de infraestrutura e de letramento digital) é o pano de fundo no qual qualquer discussão sobre tecnologia e educação precisa se situar. Especialmente quando falamos de jovens, adultos e idosos que já carregam o peso de trajetórias escolares interrompidas.

O que a tecnologia pode fazer pela educação?

Dito isso, seria um erro ignorar o potencial transformador que a tecnologia carrega quando bem utilizada e acompanhada de políticas públicas sérias. Há dimensões concretas em que ela já está mudando o jogo educacional:

Flexibilidade de tempo e espaço 

Para um trabalhador que entra no serviço às 6h da manhã e sai às 18h, a possibilidade de acessar conteúdos educativos no celular, no horário que couber em sua rotina, é uma revolução. A educação a distância e os recursos digitais rompem com a rigidez do modelo presencial tradicional, criando janelas de aprendizado antes inexistentes para quem tem jornadas longas e irregulares.

Ampliação de oportunidades educativas

A inteligência artificial pode apoiar processos educativos ao oferecer recursos de acessibilidade, organizar informações e auxiliar no acompanhamento das aprendizagens. Em contextos marcados por desigualdades territoriais e limitações de acesso à educação, essas ferramentas podem ampliar oportunidades de estudo e formação, desde que utilizadas de forma crítica, ética e articulada à mediação dos educadores.

Acesso a conteúdos antes inalcançáveis

Um educando da EJA em um município pequeno do Amazonas pode, hoje, participar de formações com educadores e educandos de diferentes regiões do país, acessar um acervo de livros digitais ou participar de uma formação online com outros estudantes de todo o Brasil. A tecnologia quebrou barreiras geográficas que antes eram intransponíveis.

Fortalecimento do vínculo entre escola e comunidade 

Ferramentas como grupos de WhatsApp, videoconferências e plataformas de comunicação permitem que educadores mantenham o vínculo com seus educandos fora da sala de aula, notificando sobre aulas, compartilhando materiais e acolhendo dúvidas. Para a EJA, onde a evasão é um desafio permanente, esse vínculo tem um papel fundamental na permanência.

O perigo da tecnologia sem crítica

A euforia em torno das possibilidades tecnológicas precisa ser temperada por uma análise crítica. Nem todo uso da tecnologia na educação é automaticamente bom, e alguns riscos são sérios o suficiente para merecer atenção especial.

A ilusão do acesso 

Ter um celular não significa ter acesso educacional de qualidade. Muitos educandos da EJA que possuem smartphones os utilizam basicamente para mensagens e redes sociais, sem nunca terem tido a oportunidade de aprender a usar esses dispositivos como ferramentas de aprendizado. A inclusão digital plena exige alfabetização tecnológica e essa formação precisa fazer parte do currículo da EJA.

O viés algorítmico e a reprodução de desigualdades

Pesquisadores alertam para os perigos éticos do uso da inteligência artificial na educação, como a coleta e tratamento indevidos de dados, o viés algorítmico e a reprodução de desigualdades sociais preexistentes. 

A substituição do humano pelo digital 

Talvez o risco mais grave no contexto da EJA seja a tentação de usar a tecnologia como substituta da relação pedagógica presencial. Para um adulto que chegou à sala de aula carregando décadas de exclusão e insegurança, o vínculo com o educador é parte essencial do processo de aprendizado. Uma plataforma digital pode oferecer conteúdo, mas não pode oferecer acolhimento, escuta, reconhecimento. 

A desinformação como ameaça à educação 

Em um ambiente saturado de informações, saber distinguir o verdadeiro do falso tornou-se uma dimensão fundamental da formação educativa. A proliferação de conteúdos falsos nas redes sociais representa um desafio particular para adultos em processo de alfabetização, que ainda estão desenvolvendo as ferramentas críticas para navegar por esse ambiente. A educação midiática e digital precisa ser parte do processo formativo na EJA.

Tecnologia na perspectiva freiriana

Paulo Freire ensinou que aprender a ler não é apenas decodificar letras, é fazer a leitura do mundo. No século XXI, essa leitura do mundo passa, inevitavelmente, pelo mundo digital.

Nesse sentido, a inclusão tecnológica no contexto da EJA não pode ser reduzida a ensinar as pessoas a "usar o celular" ou "navegar no Google". É preciso ir além: desenvolver a consciência crítica digital, a capacidade de compreender como as tecnologias funcionam, quem as controla, a quem servem, como os algoritmos moldam o que vemos e o que não vemos, e como podemos usar essas ferramentas como instrumentos que podem contribuir para processos de emancipação. 

Nesse espírito, a tecnologia deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser mais uma linguagem com a qual o educando pode se expressar, questionar e transformar sua realidade. 

O que o Projeto ALFA-EJA Brasil está fazendo?

O Projeto ALFA-EJA Brasil, realizado pelo Instituto Paulo Freire em parceria com a Petrobras, incorpora essa perspectiva em sua abordagem. Ao atuar presencialmente em 15 municípios do Norte e Nordeste, regiões com os maiores índices de exclusão digital e analfabetismo do país, e na modalidade a distância em mais de 62 cidades, o projeto enfrenta na prática a tensão entre o potencial da tecnologia e os limites concretos dos territórios.

A metodologia da Leitura do Mundo, que orienta todas as ações do projeto, parte justamente da escuta dos territórios: quem são as pessoas, o que vivem, o que sabem, quais são suas condições reais de acesso. 

Tecnologia a serviço de quem mais precisa

O impacto da tecnologia na educação é real, profundo e crescente. Ignorá-lo seria irresponsável. Mas celebrá-lo acriticamente, sem enfrentar as desigualdades de acesso e as armadilhas do uso sem reflexão, seria igualmente equivocado.

A pergunta que deve guiar políticas públicas, projetos educacionais e práticas pedagógicas não é "como usar mais tecnologia na educação?", mas sim: tecnologia para quem, com que propósito e em que condições?

Para a EJA, a resposta só pode ser uma: tecnologia que amplie direitos, que fortaleça vínculos, que desenvolva autonomia e que nunca substitua o essencial: o encontro humano entre educadores e educandos, que ensinam e aprendem em diálogo.

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