Chegar à vida adulta sem acesso à leitura e à escrita não é resultado de incapacidade individual, mas de desigualdades históricas que ainda marcam o Brasil.
Para milhões de brasileiros, essa é a realidade. É por isso que falar sobre a importância da educação não é um exercício acadêmico: é uma questão de dignidade, de direitos e de futuro.
O Brasil marcado pela exclusão educacional
Segundo o IBGE, o Brasil registrou em 2024 9,1 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais. Embora esse número represente o menor índice desde o início da série histórica (5,3%), o desafio permanece imenso, especialmente para populações específicas.
Entre pessoas pretas e pardas, a taxa de analfabetismo é de 6,9%, mais que o dobro da taxa registrada entre pessoas brancas (3,1%). Entre idosos pretos e pardos, esse número sobe para alarmantes 21,8%. Além disso, 5,1 milhões de analfabetos têm 60 anos ou mais, e 55,6% de todos os analfabetos do país vivem no Nordeste.
Esses dados revelam que o analfabetismo no Brasil é o reflexo de uma dívida histórica com parcelas inteiras da população que tiveram o direito à educação sistematicamente negado.
Educação é um direito humano fundamental
Desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a educação é reconhecida como um direito inalienável de todos os seres humanos. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 consolidou esse princípio: o acesso à educação é um direito de todos e um dever do Estado, independentemente da idade.
Não por acaso, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) surgiu e se consolidou como resposta à exclusão educacional histórica das classes populares. Como modalidade de ensino, a EJA foi formalmente reconhecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/96), atribuindo a ela três funções essenciais:
1. Função Reparadora
Busca garantir o direito à educação historicamente negado, seja por trabalho precoce, pobreza, falta de acesso ou outras barreiras sociais.
2. Função Equalizadora
Amplia possibilidades de participação social, acesso a direitos e inserção digna no mundo do trabalho.
3. Função Qualificadora
Promove a educação como um processo ao longo de toda a vida, valorizando a formação humana, a produção de conhecimentos e o exercício pleno da cidadania ao longo da vida.
Educação que transforma
Quando falamos sobre a importância da educação, é tentador reduzir tudo ao domínio técnico da leitura e da escrita, mas o impacto é muito mais profundo e abrangente.
1- Autonomia e dignidade no cotidiano
Saber ler abre portas que passam despercebidas para quem sempre teve essa habilidade: ler uma bula de remédio, entender um contrato de trabalho, acompanhar as notícias, ajudar um filho ou neto com a lição.A educação amplia as possibilidades de compreensão crítica da realidade e fortalece a autonomia das pessoas em seu cotidiano.
2- Inserção e valorização no mundo do trabalho
Em um mundo cada vez mais digitalizado e exigente, a escolaridade é um fator determinante para o acesso a empregos melhores e mais bem remunerados. Jovens e adultos que retomam os estudos ampliam significativamente suas possibilidades de condições mais dignas de inserção no mundo do trabalho.
3- Saúde e bem-estar
O acesso à educação amplia as possibilidades de compreensão sobre saúde, alimentação, prevenção de doenças e acesso a direitos. A educação se relaciona diretamente com melhores indicadores de saúde, longevidade e qualidade de vida.
4- Participação política e cidadã
O processo de alfabetização crítica amplia a participação democrática, fortalece a compreensão de direitos e incentiva a atuação coletiva na transformação da realidade.
5- Autoestima e pertencimento
Retornar à escola na vida adulta é, para muitos educandos da EJA, um ato de coragem.. E os benefícios vão além do conteúdo: fortalece-se o reconhecimento de si como sujeito de direitos, de saberes e de história, renova-se o sentido de pertencimento a uma sociedade que, por muito tempo, excluiu essas pessoas.
Paulo Freire e a educação como prática de liberdade
Não se pode falar sobre a importância da educação no Brasil, especialmente a educação de jovens e adultos, sem invocar o pensamento de Paulo Freire, o educador pernambucano que se tornou referência mundial na pedagogia crítica e humanizadora.
Para Paulo Freire, a educação deve criar condições para que educadores e educandos desenvolvam uma compreensão crítica da realidade e atuem sobre ela. Ele criticou o que chamou de "educação bancária", aquela em que o professor atua como mero transmissor de conteúdos, desconsiderando os saberes e experiências dos educandos.
Em contraposição, Freire propôs uma educação dialógica, que parte da realidade do educando, que valoriza o diálogo e considera os saberes prévios de cada pessoa, tendo como horizonte a emancipação humana.
Essa visão pedagógica é especialmente relevante para a EJA, cuja especificidade exige que o processo de ensino-aprendizagem reconheça que adultos chegam à escola com uma vida inteira de experiências, saberes e identidades.
A pedagogia freiriana segue influenciando experiências educacionais, pesquisas acadêmicas e políticas de educação popular em diversos países, e é o alicerce teórico e prático do Projeto ALFA-EJA Brasil.
A EJA como política pública de transformação social
A Educação de Jovens e Adultos é uma das expressões mais claras da luta por justiça social no Brasil. Sua existência revela a dívida histórica de um país que, desde o período colonial, estruturou a escola como privilégio das elites, negando às classes populares, à população negra, indígena e trabalhadora o direito à escolarização.
Fortalecer a EJA significa enfrentar diretamente a exclusão, a desigualdade e o abandono. Significa afirmar que não há democracia real sem garantir a cada cidadão o direito de aprender.
Ao mesmo tempo, os desafios são concretos: queda nas matrículas da EJA, cortes históricos de financiamento, evasão escolar motivada pela necessidade de trabalhar, distância das escolas, falta de materiais didáticos adequados à realidade dos educandos adultos.
Superar esses obstáculos exige políticas públicas consistentes, formação qualificada de educadores e, sobretudo, escuta ativa das comunidades.
Aprender é um ato político e humano
A importância da educação não cabe em uma definição simples. Ela é, ao mesmo tempo, um direito humano fundamental, uma ferramenta de emancipação, um instrumento de reparação histórica e uma condição para a construção de uma democracia verdadeira.
No Brasil, onde milhões de adultos ainda carregam o peso do analfabetismo e da baixa escolaridade, investir em educação é escolher um país mais justo.
Sobre o Projeto ALFA-EJA Brasil
O Projeto ALFA-EJA Brasil é realizado pelo Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Com base na pedagogia freiriana, o projeto promove uma abordagem dialógica, libertadora e contextualizada da educação de jovens, adultos e idosos. Por meio de ações de assessoria, formação, mobilização e articulação político-pedagógica, o ALFA-EJA Brasil atua presencialmente em municípios do Norte e Nordeste e na modalidade a distância em mais regiões.
As ações incluem formação de educadores e gestores da EJA, oficinas de leitura e escrita para educandos, o curso online "Como Alfabetizar com Paulo Freire", produção e distribuição de materiais pedagógicos voltados à realidade dos educandos, encontros comunitários e feiras pedagógico-artístico-culturais.
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