Accessibility Tools

Nos acompanhe nas redes: YouTube Instagram Facebook

Como está a educação no Brasil?

 

29 de outubro de 2026

Essa é uma pergunta que merece uma resposta honesta, sem o triunfalismo fácil de quem só enxerga o copo meio cheio, nem o pessimismo paralisante de quem só vê o que falta. 

A educação brasileira é um país dentro do país: enorme, contraditória,diversa e marcada por avanços, contradições e desigualdades que persistem.. Para entendê-la de verdade, é preciso olhar para os números, para as pessoas que eles representam e para as estruturas que produzem tanto os avanços quanto as desigualdades.

Confira neste artigo!

O que os dados dizem das conquistas?

Os dados também mostram avanços importantes. . Nas últimas décadas, o Brasil fez conquistas educacionais significativas que transformaram a vida de milhões de pessoas.

O acesso à escola é hoje quase universal na faixa do ensino fundamental. Na faixa etária de 6 a 14 anos, a escolarização atingiu 99,5%, mantendo-se praticamente estável desde 2016, evidenciando a universalização do acesso à escola nessa faixa (IBGE, PNAD Educação 2024). 

Isso é resultado de décadas de políticas públicas, de investimento em infraestrutura escolar e de programas de transferência de renda que ajudaram famílias a manter os filhos na escola.

No campo da qualidade medida por indicadores, também houve progressos. Em 2023, o Brasil alcançou 6 pontos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) dos anos iniciais do ensino fundamental, a meta nacional estabelecida para esse ciclo, que foi projetada em 2007 e tinha prazo até 2021 (MEC/INEP, 2024). É um marco simbólico importante, ainda que tardio. 

A proporção de brasileiros com 25 anos ou mais que completaram ao menos o ensino médio chegou a 56% em 2024, o maior percentual desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quando era de 46,2% em 2016. A elevação desse percentual expressa o aumento do número de pessoas que tiveram acesso e conseguiram avançar em sua trajetória de escolarização.  

Esses são avanços reais. Precisam ser reconhecidos, celebrados e defendidos.

O que os dados revelam sobre os desafios?

Os mesmos dados que mostram avanços também evidenciam desigualdades que permanecem e condicionam o acesso, a permanência e a conclusão da educação básica. Essas desigualdades não são circunstanciais: estão relacionadas a fatores sociais, econômicos, raciais e territoriais que atravessam a sociedade brasileira. 

O ensino médio: desafios de acesso, permanência e conclusão 

No ensino médio, o IDEB 2023 registrou apenas 4,3, significativamente abaixo da meta de 5,2 estabelecida para 2021. Apenas três estados (Goiás, Pernambuco e Piauí) conseguiram bater a meta do MEC nessa etapa (MEC/INEP, 2024).

O problema não é apenas de desempenho, mas de permanência. Entre os jovens de 14 a 29 anos, 8,7 milhões não haviam completado o ensino médio em 2024, seja porque deixaram de frequentar a escola antes de concluir  essa etapa ou por nunca a terem frequentado (IBGE, PNAD Educação 2025). 

Estudos do PNUD e Firjan SESI apontam que meio milhão de jovens acima de 16 anos abandonam a escola a cada ano, e que apenas 46% do quinto mais pobre da população conclui a educação básica. 

Por que saem? A resposta do IBGE é direta: entre jovens de 15 a 29 anos que não concluíram o ensino básico em 2024, 53,7% dos homens apontaram a necessidade de trabalhar como principal motivo para abandonar a escola; entre mulheres, gravidez (23,1%), trabalho (25,2%) e afazeres domésticos (9%) lideram as causas.

E a maioria quer voltar: pesquisa da Fundação Roberto Marinho, realizada em parceria com o Datafolha, divulgada em março de 2024, investigou uma população de jovens de 15 a 29 anos de todas as classes econômicas e identificou que 73% dos jovens que deixaram a educação básica manifestam intenção de retomar os estudos. Entre os principais obstáculos está a necessidade de trabalhar e contribuir para a renda familiar. O levantamento também evidencia a dimensão racial dessa realidade: sete em cada dez jovens desse grupo são negros.

 

A desigualdade como estrutura, não como exceção

A desigualdade é uma dimensão estrutural dos desafios da educação brasileira: as oportunidades educacionais permanecem distribuídas de forma desigual segundo renda, raça e território. 

Segundo o IBGE, 68 milhões de brasileiros não concluíram a educação básica, um terço da população do país. Entre os alunos de baixa renda, apenas 50% completam o ensino médio, contra 88,3% entre jovens de maior renda (IDEB/INEP, 2023). 

A desigualdade regional também é gritante. No ensino médio, apenas 9,3% das escolas públicas estaduais atingem o patamar mais alto do IDEB. No Norte, apenas 2,6% das escolas públicas chegam a esse nível; no Nordeste, 7,6%, ambas as regiões abaixo da já baixa média nacional (CartaCapital, com base em dados INEP).

A valorização dos profissionais da educação 

Nenhuma análise da educação brasileira é completa sem considerar as condições de trabalho, formação, remuneração e reconhecimento dos profissionais da educação. 

O salário mínimo dos educadores do ensino fundamental no Brasil é 47% menor do que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo o relatório Education at a Glance 2024. E os efeitos desse subinvestimento na carreira são visíveis: de acordo com dados da pesquisa TALIS 2024, apenas 25% dos educadores dos anos iniciais no Brasil afirmam estar satisfeitos com seus salários, um dos índices mais baixos do mundo.

Isso não é um dado periférico. Um sistema educacional que não valoriza quem ensina, em termos salariais, de condições de trabalho, de formação continuada e de reconhecimento social, está minando a própria base sobre a qual a qualidade do ensino se sustenta. Esse cenário reforça a importância de políticas de valorização profissional que considerem remuneração, condições de trabalho, formação continuada e reconhecimento social. A atratividade e a permanência na carreira docente estão relacionadas a esse conjunto de condições e constituem parte importante dos desafios para a garantia de uma educação de qualidade. 

Há sinais de melhora recente: em 2025, o piso salarial do magistério teve reajuste acima da inflação. É um passo. Mas um passo diante de uma defasagem histórica que exige muito mais.

A educação como experiência humana

Por mais úteis que sejam os dados do IDEB, do Censo Escolar e da PNAD, eles capturam apenas parte do fenômeno. Os números medem fluxo e aprovação, não medem se um educando chegou à escola com fome e voltou para casa sem aprender. Não medem a educadora que desdobrou sua jornada dupla para preparar uma aula com materiais comprados do próprio bolso. Não medem as condições concretas vividas por jovens, adultos e idosos que conciliam trabalho, responsabilidades familiares, deslocamentos e estudos para exercer seu direito à educação. 

A educação é também isso: relação, confiança, vínculo, esperança. É por isso que qualquer diagnóstico honesto da educação brasileira precisa ir além dos indicadores e perguntar: que tipo de escola estamos construindo? Para quem ela é pensada? Quem ela acolhe e quem ela expulsa?

Investimento: o Brasil ainda gasta pouco e mal

Uma das raízes estruturais dos problemas da educação brasileira é o financiamento. Segundo o relatório da OCDE Education at a Glance 2024, entre 2015 e 2021 o investimento brasileiro em educação, da básica à superior, caiu em média 2% ao ano, na contramão de outros países da OCDE, onde o investimento cresceu 2,1% ao ano no mesmo período. O Brasil está entre os dez países que menos investem em educação entre as nações do grupo.

O governo brasileiro gasta em média R$ 20,5 mil por ano com cada estudante do ensino público, valor que corresponde a apenas um terço do que países como Luxemburgo, Suíça e Noruega investem por estudante. Qualidade de ensino não se fabrica apenas com boa vontade: ela exige investimento consistente, sustentado e bem direcionado.

O contexto da EJA

Se você quer entender como está a educação no Brasil em seus aspectos mais estruturais, olhe para a Educação de Jovens e Adultos. A EJA não é uma curiosidade marginal do sistema educacional, é o lugar onde chegam os efeitos acumulados de tudo o que o sistema fez ou deixou de fazer ao longo de décadas.

Os 9,1 milhões de analfabetos brasileiros com mais de 15 anos, os 68 milhões que não concluíram a educação básica, os jovens que saíram cedo da escola para trabalhar, as mulheres que interromperam os estudos por causa de uma gravidez não planejada, os trabalhadores do campo que nunca tiveram escola próxima… Essas diferentes trajetórias compõem uma parte importante dos sujeitos que têm na EJA uma oportunidade de exercer ou retomar seu direito à educação 

E a EJA, paradoxalmente, enfrenta hoje uma contradição grave: ao mesmo tempo em que a demanda potencial por ela é imensa, as matrículas vêm caindo. A EJA é um direito e uma modalidade da educação básica que precisa considerar as trajetórias, os saberes, as condições de vida e as necessidades de jovens, adultos e idosos. Ao mesmo tempo em que a demanda potencial por essa modalidade permanece expressiva, as matrículas vêm caindo. Esse cenário coloca desafios para o financiamento, a infraestrutura, a formação dos educadores e a construção de políticas públicas que considerem as condições concretas de quem precisa conciliar trabalho e estudo. 

Fortalecer a EJA é uma questão política, ética e de justiça.

O que o Projeto ALFA-EJA Brasil representa nesse cenário?

É nesse contexto que o Projeto ALFA-EJA Brasil, realizado pelo Instituto Paulo Freire em parceria com a Petrobras, atua. Presente em 15 municípios do Norte e Nordeste, além de atender mais de 62 cidades na modalidade a distância, o projeto articula dados, escuta dos territórios e experiências dos sujeitos para fortalecer processos de formação e participação na EJA. 

Sua aposta é a mesma de Paulo Freire: que educação de qualidade começa pelo reconhecimento dos sujeitos. Que formar educadores comprometidos, com metodologia sólida e materiais adequados à realidade de adultos, é uma forma de fortalecer práticas educativas comprometidas com os sujeitos, seus saberes, suas experiências e os contextos em que vivem. 

Um diagnóstico que convoca à ação

Os dados e as experiências acumuladas apontam caminhos importantes: ampliar e qualificar o investimento público, valorizar os profissionais da educação, enfrentar as causas da interrupção das trajetórias escolares, fortalecer a EJA como política pública e construir práticas educativas que reconheçam a diversidade dos sujeitos e dos territórios. 

A notícia desafiadora é que essas mudanças exigem vontade política, recursos públicos e uma sociedade que compreenda que a educação não deve ser compreendida apenas como investimento econômico. É um direito humano fundamental e uma dimensão essencial para a construção de uma sociedade democrática, justa e socialmente referenciada. 

Gostou deste conteúdo? Siga o ALFA-EJA Brasil nas redes sociais e acompanhe as ações, conteúdos educativos e as histórias das comunidades que transformamos juntos!