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Alfabetização na EJA: princípios para uma prática educativa dialógica

 

15 de outubro de 2026

A alfabetização de jovens, adultos e idosos apresenta desafios e características próprias. Diferentemente da alfabetização infantil, ela envolve sujeitos que chegam aos espaços educativos trazendo histórias de vida, experiências de trabalho, conhecimentos construídos na família, na comunidade, nos movimentos sociais, nos territórios e nas múltiplas formas de participação na sociedade.

Por essa razão, alfabetizar na Educação de Jovens e Adultos (EJA) exige práticas pedagógicas que reconheçam os educandos como sujeitos de direitos e produtores de conhecimento. Mais do que ensinar códigos escritos, trata-se de criar condições para que a leitura e a escrita dialoguem com a realidade vivida por cada pessoa.

Referências da Educação de Jovens, Adultos e Idosos

A EJA constitui um importante campo de estudos, pesquisas e práticas pedagógicas. Entre suas principais referências estão educadores como Paulo Freire, Miguel Arroyo, Moacir Gadotti, Sergio Haddad, Vera Barreto, Sonia Couto, Francisca Elenir Alves, Ângela Biz Antunes, Marta Kohl de Oliveira, Paulo Roberto Padilha e diversos outros pesquisadores e educadores que contribuíram para a construção desse campo de conhecimento.

No Brasil, o nome mais associado à alfabetização de jovens e adultos é o de Paulo Freire. Reconhecido internacionalmente, o educador pernambucano desenvolveu uma proposta pedagógica baseada no diálogo, na participação e na leitura crítica da realidade.

A experiência realizada em Angicos (RN), em 1963, tornou-se uma referência internacional não apenas pelos resultados alcançados, mas principalmente por sua concepção pedagógica, que articulava alfabetização, participação popular e reflexão crítica sobre a realidade vivida pelos educandos.

As contribuições de Paulo Freire continuam inspirando educadores, pesquisadores e projetos educativos em diferentes partes do mundo. No Projeto ALFA-EJA Brasil, seus princípios dialogam com a produção contemporânea da EJA e orientam práticas educativas centradas na valorização dos saberes dos educandos, no diálogo e na leitura crítica do mundo.

Entre as educadoras que integram a Equipe Pedagógica do Projeto ALFA-EJA Brasil estão Sonia Couto e Francisca Elenir Alves, ambas referências na área da Educação de Jovens, Adultos e Idosos.

Sonia Couto, doutora em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e membro titular da Comissão Nacional de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos (CNAEJA), destaca que o educando adulto chega ao processo educativo trazendo experiências, conhecimentos e formas próprias de compreender a realidade. Para ela, respeitar os saberes construídos ao longo da vida é condição fundamental para uma prática educativa significativa.

Francisca Elenir Alves, doutora em Educação, coordenadora de projetos do Instituto Paulo Freire nas regiões Norte e Nordeste e membro suplente da CNAEJA, também enfatiza a importância de reconhecer as trajetórias dos educandos e de construir processos pedagógicos conectados às realidades dos territórios.

As duas educadoras defendem que alfabetizar jovens, adultos e idosos significa ampliar as possibilidades de leitura da palavra e do mundo, considerando os diferentes contextos sociais, culturais e históricos vividos pelos educandos.

Princípios que orientam a prática educativa na EJA

Leitura do mundo como ponto de partida

Para Paulo Freire, a alfabetização não começa pelas letras, mas pela leitura do mundo. Antes de aprender a palavra escrita, toda pessoa já interpreta a realidade em que vive, atribui significados às suas experiências e produz conhecimentos sobre o seu contexto.

Por isso, os processos educativos precisam partir das experiências concretas dos educandos, de suas histórias de vida, de suas formas de trabalho, de suas culturas e dos desafios enfrentados em seus territórios.

A palavra escrita ganha sentido quando dialoga com a vida concreta.

Como afirma Paulo Freire:

"No círculo de cultura, a rigor, não se ensina, aprende-se em reciprocidade de consciências; não há professor, há um coordenador, que tem por função dar as informações solicitadas pelos respectivos participantes e propiciar condições favoráveis à dinâmica do grupo, reduzindo ao mínimo sua intervenção direta no curso do diálogo."

(FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra.)

O diálogo como fundamento da aprendizagem

Outro princípio fundamental da prática educativa na EJA é o diálogo.

Na perspectiva freiriana, o diálogo não é apenas uma técnica pedagógica, mas uma forma de construção coletiva do conhecimento. Por meio dele, educadores e educandos compartilham saberes, formulam perguntas, problematizam situações concretas e constroem novas compreensões sobre a realidade.

O interesse pelas histórias de vida dos educandos e o reconhecimento dos conhecimentos construídos ao longo de suas trajetórias fortalecem sua participação no processo educativo e ajudam a enfrentar processos históricos de exclusão e desvalorização.

Em Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire afirma:

"O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros."

(FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.)

Educação como problematização da realidade

A alfabetização na EJA não se limita ao domínio técnico da leitura e da escrita. Ela envolve a capacidade de compreender criticamente a realidade e atuar sobre ela.

Questões relacionadas ao trabalho, à saúde, ao meio ambiente, aos direitos humanos, à cultura, ao território e à participação social podem se tornar temas geradores para processos de aprendizagem significativos.

Nessa perspectiva, aprender a ler e escrever significa também ampliar a capacidade de interpretar o mundo, identificar desafios coletivos e participar da construção de alternativas para transformá-lo.

Construção coletiva do conhecimento

A prática educativa na EJA reconhece que ensinar e aprender são processos inseparáveis.

Isso não significa eliminar o papel do educador, mas compreender que a produção do conhecimento acontece na interação entre sujeitos que compartilham experiências, saberes e perguntas.

Como afirma Paulo Freire:

"[...] o diálogo é uma relação horizontal. Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé e da confiança. Por isso, só o diálogo comunica."

(FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.)

Leitura do mundo, diálogo, problematização da realidade e construção coletiva do conhecimento constituem alguns dos princípios que orientam a prática educativa na Educação de Jovens, Adultos e Idosos. Há muitos outros, mas todos partem de uma compreensão comum: os educandos são sujeitos ativos dos processos de aprendizagem.

O Projeto ALFA-EJA Brasil e a pedagogia freiriana

O Projeto ALFA-EJA Brasil, realizado pelo Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire em parceria com a Petrobras, desenvolve suas ações com base nos princípios da Educação Popular e da pedagogia freiriana.

Sua atuação articula alfabetização, formação de educadores, fortalecimento da política pública de EJA, mobilização social e valorização dos saberes construídos nos territórios.

A Leitura do Mundo constitui uma das principais referências metodológicas do projeto. Por meio dela, educadores e educandos partem de suas experiências concretas para construir processos de aprendizagem contextualizados, críticos e socialmente comprometidos.

Presente em municípios das regiões Norte e Nordeste, o ALFA-EJA Brasil atua junto a jovens, adultos e idosos de diferentes comunidades, reconhecendo a diversidade cultural dos territórios e fortalecendo o direito à educação ao longo da vida.

No ALFA-EJA Brasil, alfabetizar significa reconhecer que toda pessoa tem o direito de ler a palavra e o mundo. Significa criar condições para que jovens, adultos e idosos ampliem sua participação social, fortaleçam sua autonomia e exerçam plenamente seus direitos. É nessa perspectiva que a leitura do mundo, o diálogo e a valorização dos saberes populares orientam as ações do projeto.